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Os políticos precisam de novas táticas para reter a atenção do eleitor

Carlos Galhardo, um brasileiro de 32 anos, vem nos últimos meses assistindo com entusiasmo a todas as temporadas da série política “House of Cards” sem intervalos comerciais na Netflix. Ele não é assinante de TV a cabo, mas assiste no canal de filmes as suas séries favoritas em seu aparelho de TV conectado à internet. Carlos deixou de assistir a TV aberta porque considera o jornalismo brasileiro e a nosso produção televisiva “entretenimento de baixa qualidade”. “Ninguém pagaria por isso”, sentencia.


Carlos é o típico cidadão que estará fora do alcance dos comerciais eleitorais que começaram a ser exibidos em agosto de 2016 na TV aberta. Ele não precisou de um software que bloqueia anúncios para retirar a publicidade da TV aberta de sua vida. “Eu gosto de assistir a um episódio de 40 minutos de uma só vez”, diz Carlos, que considera que ver 18 minutos de comerciais “não faz nenhum sentido”.
A indústria mundial da publicidade, reunida este mês na Riviera francesa para o famoso festival de Cannes dedicado ao setor, está consciente de que prender a atenção do consumidor está cada vez mais difícil e mais frustrante em quase todos os tipos de mídia. As pessoas estão evitando anúncios impressos, pulando comerciais de TV e cancelando suas assinaturas de cabo. Imagine o que acontecerá com os comerciais políticos no Brasil depois de mais de uma década de criminalização da atividade, onde um sinal de igual entre o ato político e o ato criminoso foi traçado pela totalidade dos órgãos de imprensa.
A esse desmoronamento de imagem se soma uma questionável reforma eleitoral feita pelo congresso nacional, que concentra poder nas legendas maiores, diminuiu ou eliminou a publicidade de pequenas legendas – algumas das quais poderiam sinalizar com a renovação da política – e reduziu o tempo de campanha, fazendo com quem está na máquina ou quem já tem grande exposição pública – como líderes religiosos, artistas, atletas e comunicadores profissionais – tenham uma vantagem colossal sobre quem está na oposição e ainda precisa se apresentar ao eleitor. Embora parte da mídia venda as mudanças ocorridas na legislação como positivas, a análise objetiva das regras revela que elas fortalecem os fortes e enfraquecem os fracos. Ou seja, não podem ser chamadas, a bem da verdade, de democráticas.
Como resultado desse desastre perfeito, os políticos precisam reescrever suas regras de marketing eleitoral. Mergulhar mais fundo na publicidade dirigida com base em dados e localização, usando a internet, e-mail marketing e mala direta, não parece apenas ser uma tendência tecnológica a considerar, mas sim a única que pode salvar do isolamento das legendas que não tenham poder de barganha para juntar tempo de TV no leilão que está acontecendo nesse exato momento à revelia do eleitor.

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